O trabalho (re)produtivo na indústria da moda

By Fashion Revolution Brazil

3 months ago

“O corpo das mulheres é a última fronteira do capitalismo. Imagine se as mulheres entram em greve e não produzem filhos, o capitalismo pára. Se não há controle sobre o corpo da mulher, não há controle da força de trabalho. As diferenças não são o problema, o problema é a hierarquia”. Silvia Federici. 

Dia 25 de outubro é o dia internacional contra a exploração da mulher. Data instituída como resposta à desigualdade de gênero e todas as suas ramificações. Para seguirmos nessa conversa, vamos compreender onde e como o corpo feminino vem ocupando (ou não) espaços de direito dentro da indústria da moda. 

Segundo dados do FashionUnited, a cadeia produtiva da moda é composta por algo em torno de 60 milhões de trabalhadores alocados em diferentes regiões (e condições) no mundo todo. Estima-se que, pelo menos, 85% dessa mão de obra seja constituída por mulheres [The True Cost]. É importante destacar que esse número pode ser uma expectativa baseada em acordos legais e outros relatórios, mas órgãos especializados acreditam que pode ser ainda maior, pois há irregularidades trabalhistas e falta de fiscalização contínua em locais mais vulneráveis. 

No Brasil, esse contexto se mostra ainda mais relevante. O setor é responsável por empregar, aproximadamente, 1,36 milhão de pessoas. Também é apontado como o segundo maior empregador da indústria de transformação, perdendo apenas para alimentos e bebidas (juntos) e 60% dessa classe trabalhadora é constituída por mulheres [ABIT 2021]. 

Quando direcionamos essa lente entre as diversas ocupações presentes ao longo do processo têxtil, para que possamos compreender ainda mais as facetas dessa extensa distribuição, percebemos que ainda há muito para avançarmos. 

No campo, onde são realizados os cultivos do algodão, por exemplo, cerca de 40% da força de trabalho agrícola – registrado e remunerado – é integrada por mulheres [OIT], mas apenas 15% delas detém áreas de plantação. Ou seja, acabam trabalhando na lida do dia a dia, somente como operárias em diferentes funções. De acordo com o Censo Agrícola, mulheres possuem apenas 12,7% do título das terras onde estão. A prática mais comum é que os registros estejam em nome dos homens da família. Tal cenário pode ser compreendido por conta de fatores, como falta de acesso à educação, tradição conservadora e a divisão sexual do trabalho, entre outros. 

Já no setor industrial, subsidiado por seus complexos elos produtivos e majoritariamente feminino, além do recorte de gênero, também notamos de forma latente os recortes sociais, raciais e econômicos. 

O Brasil é a maior cadeia têxtil completa do Ocidente e o estado de São Paulo é responsável por concentrar 27% dessa potência produtiva. Não é incomum que regiões como Brás e Bom Retiro se destaquem por suas centenas de facções e confecções, atraindo pessoas de países vizinhos em busca de melhores oportunidades de vida e de trabalho. Basta dar uma volta por esses endereços para percebermos que grande parte dos

negócios é mantido por imigrantes, com idades que variam entre 20 e 30 anos. Em suma, famílias inteiras que se deslocam de países latinos, como Bolívia ou Venezuela, e anseiam por novos horizontes. De acordo com o Consulado da Bolívia em São Paulo, bolivianos são a 2ª maior colônia de estrangeiros no estado – representando mais de 17 mil pessoas, entre 2000 e 2010. 

Dentre as diversas etapas que compõem a imigração, a regularização nem sempre é algo fácil de ser solucionado. Fatores como alto investimento financeiro, tempo e todas as demais burocracias que envolvem esta demanda, acabam expondo muitas dessas famílias à ilegalidade, um terreno fértil para que a informalidade possa aflorar. 

A atividade da costura costuma surgir de maneira oportuna, uma vez que pode ser de conhecimento familiar dentre as rotinas domésticas presentes nas culturas locais e acaba por facilitar a “absorção” dessa mão de obra mais rapidamente. Fator que deveria possibilitar maior geração de renda e emancipação social. Só que não! A urgência por um trabalho que mantenha as necessidades básicas do dia a dia somada à dificuldade do idioma, possível ilegalidade, e um setor produtivo que anseia por eficiência, só faz descortinar o quão vulnerável essa classe se encontra, principalmente as mulheres.

Normalmente, como forma de transcender esse status, as famílias acabam trabalhando para juntar o máximo de dinheiro que for possível e assim abrir as suas próprias oficinas. Nesse caso, a regularização acaba sendo, por muitas vezes, “um privilégio” do homem da casa, do provedor que também terá acesso ao CNPJ da empresa. 

Ao longo do tempo, as mulheres – muitas remanescentes de ambientes opressores, machistas e conservadores – seguiram ocupando suas rotinas exauridas, permeadas pelo trabalho não remunerado, como a criação de seus filhos, de familiares e de todos os que transitam pelos seus espaços comuns e compartilhados, desprovidas de acessos legais, direitos do Estado ou qualquer outra iniciativa que se faça presente e possa garantir dignidade e bem-estar. 

A falta de acesso e incentivo às mulheres negras, também é uma tendência recorrente na indústria da moda. Afinal, mulheres negras ocupam grande parte da cadeia produtiva do setor, na lavoura, na indústria, nas máquinas de costura e em tantos outros cenários, mas são a minoria quando falamos de cargos de liderança. A presença feminina em altos postos de marcas de moda gira em torno de apenas 15% se comparado à presença masculina. quando inserimos o recorte de raça e olhamos para outros setores, esse número despenca para 7% – nas contratações feitas em São Paulo, em 2020. 

Algumas pesquisas revelam que mesmo buscando por maior qualificação profissional, mulheres ainda ocupam menos cargos de lideranças em outros setores do mercado [Fashion Institute Technology] . De acordo com a Grant Thornton, apenas 38% dos cargos de liderança do Brasil são ocupados por mulheres. Um levantamento do IPSOS identificou que cerca de 03 em cada 10 pessoas admitem que se sentem “desconfortáveis” quando têm uma mulher como chefe – essa resistência se torna ainda maior entre os homens.

Essas informações só elucidam a falta de comprometimento (ou interesse?) do Estado para com políticas públicas mais eficientes e propositivas, capazes de garantir a equidade de gênero de forma real e estrutural. 

Também não podemos nos esquecer da constante exploração midiática que garante que essa poderosa engrenagem continue a funcionar, por meio de um esforço significativo para condicionar corpos femininos a cargos de menor relevância (ou poder). Afinal de contas, estamos falando sobre um sistema invariavelmente capitalista, patriarcal, operando em torno da fetichização da mercadoria (mulher) por meio de campanhas publicitárias e ações de marketing amparadas pela constante exploração imagética, de conotações sexistas. 

Como fronte a tanta violação, legitimada por uma estrutura de poder, o que pretendemos não é apenas, ou simplesmente, uma adequação na indústria da moda, mas sim uma revolução que possa assegurar a verdadeira emancipação feminina. 

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Imagem: Joice Rivas 

Escrito por Julia Codogno 

Revisado por André Teixeira 

Julia Codogno é comunicadora de moda e sustentabilidade. Desenvolve seu trabalho por meio de mentorias, palestras e conteúdos educativos. É criadora de um guia digital que reuniu mais de 200 marcas com iniciativas de impacto positivo e co-criadora do projeto Retecendo. Acompanhe @juliacodogno