Coluna SILVÉRIO: Até que ponto vai o seu antirracismo?

By Fashion Revolution Brazil

3 months ago

pelo nosso colunista, Rafael Silvério*

Natasha Soares, fundadora do Pretos na Moda (amiga – irmã) parceira em co-autoria do Projeto Sankofa, me relatou seu desejo de contribuir para criar um espaço de moda, no qual as gerações subsequentes a dela de mulheres negras dentro da indústria, possam usufruir de um ambiente mais sadio para a mente e o corpo de pessoas etnicamente distintas da raça branca.

Desde que o caso George Floyd invadiu as mídias, muito vimos sobre a mudança estrutural por uma moda que pudesse interagir com outros corpos para além de outras racialidades, mas corporealidades que fossem fora do padrão eurocêntrico, magro e heterossexual perpetuado por anos.

Tivemos o perfil “MODA RACISTA“, que durante um tempo relatou denúncias anônimas sobre os casos que denunciavam os comportamentos opressores de estilistas veteranos como; Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho que detinham lugares decisórios e condições de influenciar as mudanças comportamentais dentro do mercado.

Muito foi prometido, e por medo do cancelamento tivemos algumas corporações fazendo ações de marketing de forma de se absorverem das pautas sem necessariamente incluir ou se preparar para fazer dos seus times genuinamente plurais.

A militância que não transpassa as mídias sociais também é um advento desse tempos, dos quais os ladrões de capital social, se apropriam de discursos para fazer um julgamento de valor para os que são expostos em situações discriminatórias, visando uma oportunidade de ser uma ascensão midiática em cima de bandeiras sociais e grupos minorizados em busca de reais porta vozes que possam expressar verdadeiramente toda a indignação das vozes silenciadas.

As manifestações racistas, são das mais veladas, quase sutis até as mais explícitas e agressivas, os casos ganham a internet como uma forma de trazer mais uma vez o tema para opinião pública, que se apropria desse pavio de pólvora, quando a beneficia. E assim é, muitos dos usuários que aderiram o movimento #BLACKOUTTUESDAY no ano passado, quantos realmente investiram seu tempo em um letramento de forma comprometida e profunda e revisaram seus racismos estruturais, institucionais e velados?

Começaram a tentar usar seus privilégios em prol de mais visibilidade das comunidades silenciadas, e deram não apenas espaço, mas ferramentas de desenvolvimento autônomo em prol de empoderamento a ponto que seus pensamentos e opinião colonizada.

Quantos negros estes adeptos tem? Quantas amores negros viveram? Foi dado espaço seguro e compreensão para uma acolhida de uma denúncia sobre um ambiente abusivo?

A da ação de “marketing” da Farm só é apenas a ponta de um iceberg do qual a moda sempre esteve sentada, quem acompanha minhas colunas aqui, sabe que eu sempre apontei a moda como prima irmã do capitalismo. Não me admira em que uma corporação que ainda não tem em sua cerne lideranças negras consolidadas na sua estrutura tenha esse tipo de estrutura, não há como a mudança ser genuína se o trabalho não impacta também a gestão, se ela não tem consciência de como seus atos impactam direta e indiretamente os mais sensíveis dentro de uma hierarquia capital.

Enquanto a discussão for apenas dentro de uma célula moda “sustentável” e branca, impossibilita que as ideias se  disseminem a ponto de mudança de mentalidade para que seja pautada no compromisso com o humano antes do lucro. Continuaremos sendo acusados de roubo, por propriedades que são nossas por direito, sendo alvos de “piadas” no qual a branquitude desmerece as nossas conquistas, dizendo que a forma atual de competição racial é estes submergem baldes em crinolinas. Seguiremos segurando as notas na bolsa para justificar uma compra em qualquer comércio, como uma nota de alforria, então o porque estamos estampados de forma exotificada em campanhas que vendem afro jornada como um filme de drama que sempre tem um filme de superação.

Essas micro agressões raciais contribuem para uma noção e inferior para os membros das raças não brancas e que estes desenvolvam vários quadros psíquicos depressivos/ansiosos além de sermos os corpos mais vulneráveis a qualquer violência física, enquanto vemos uma branquitude desfrutar o privilégio branco, ainda lutamos por ter direito pelos nossos corpos e mente como proprietários únicos.

Citei Nina Simone no meu texto anterior, na Coluna Silvério, e ainda continua ecoando quando foi o momento, que eu fui livre! Que a sensação de medo, ou de alguém que amo incondicionalmente não tenha me arremetido (não propositalmente) que possamos ser vítimas, ou vitimizados feitos de mártires, ou que os nossos corpos mesmo depois de um desencarne não são honrados a ponto de não sermos usados em prol de algo ou alguém?

Só porque você possa ter amigos negros, namore negros, tenha filhos negros, parceiros fraternos e amorosos negros, isso não isome de ser um racista quando o ambiente é culturalmente racista, nem impede que tenha uma atitude que reproduz o que está condicionado o tempo todo como “normal”. O sistema racista deste país é sofisticado a ponto de se manifestar por pequenas arestas, se não houver vigilância para isso, é passível de perpetuação consciente ou não, o fato da consciência ou não de nada exime a ação que: machuca, sufoca, oprime, induz, diminui e mata as pessoas de raça não branca.

Deve ser um texto difícil para ler, visto de dentro de uma bolha de privilégio, o processo não precisa da experiência para, mas quando se nega a osmose, cabe apenas esta como a única saída.

*A imagem que compõe o texto, faz parte da capa do livro “A liberdade é uma luta constante”, de Angela Davis.

Confira os escritos anteriores da Coluna SILVÉRIO:

O desejo dos gêneros

Quem tem medo de Madame Satã?

Como ser revolucionário 365 dias do ano?