Vidas negras importam

By Fashion Revolution

4 months ago

Vidas negras importam. E foram as vidas negras aquelas usadas para produção de algodão nos Estados Unidos no período escravagista.

O algodão é protagonista na indústria têxtil há muito tempo. Se hoje ele é a fibra natural mais utilizada e produzida no mundo, é porque há décadas ele circula nos mercados capitalistas. Seu cultivo é muito antigo – data antes mesmo do surgimento de mercados – mas sua produção foi uma das primeiras a se industrializar, no período da Revolução Industrial europeia, principalmente na Inglaterra. Sua produção contribuiu muito para essa Revolução Industrial, e enquanto mulheres e crianças trabalhavam exaustivamente em grandes tecelagens em lugares como Manchester (Reino Unido), pessoas africanas eram sequestradas do seu continente de origem e escravizadas em imensas plantações de algodão nos Estados Unidos – e em outras.

O sul dos EUA foi um grande exportador de algodão, então consequentemente um grande produtor. Muitos fazendeiros de algodão eram senhores de escravizados e, embora a fibra e tecido não fossem o principal item no comércio global da época, milhares de pessoas negras foram escravizadas para produzi-lo. Mais tarde, o mesmo Sul dos Estados Unidos teve o racismo legislado por meio da segregação racial. Hoje, esta mesma segregação segue em curso, não em leis, mas institucionalizada e intrínseca em todo o território do país. E no dia 25 de maio de 2020, um homem negro chamado George Floyd foi assassinado brutalmente pela polícia estadunidense, se somando a outras violações de vida que o racismo promove e escancarando as mazelas da escravidão e o racismo como uma política.

Isso revela como os sistemas produtivos da moda (têxtil ou vestuário) muito se sustentaram por meio de sistemas exploratórios e perversos, que deixam suas marcas de morte até hoje. O algodão deste período foi produto do sistema escravagista, foi produto da morte de pessoas negras. E esse mesmo sistema revela suas sequelas até hoje, com o assassinato de George Floyd, com as balas perdidas que sempre acham corpos negros como do João Pedro e João Vitor, com a morte de tantos outros que viram estatística, e com a morte de poder sonhar e viver em paz, respirando.

Não sendo um problema exclusivo dos EUA, o Brasil tem suas peculiaridades dentro de um mesmo contexto de racismo estrutural. E embora a colonização e escravidão aqui tenham sido diferentes, com menos campos de algodão e mais campos de café e açúcar, vemos a manifestação desse mesmo racismo que também mata pessoas negras, expulsa comunidades quilombolas de seus territórios, marginaliza a população negra e a deixa à deriva da desigualdade. Esse processo se dá, ainda, muito por meio da exploração da Natureza, que mistura a exploração das pessoas nesse grande conglomerado de injustiças. A violência se renova e percorre toda a cadeia produtiva da moda, onde inúmeras pessoas, em sua maioria mulheres, são submetidas a condições de escravidão contemporânea e o racismo segue mostrando sua face dos campos às passarelas.

Por isso precisamos olhar para o passado da indústria da moda e entender suas implicações no presente. Afirmando nosso compromisso com uma revolução na moda – e cientes do muito que ainda precisamos caminhar – acolhemos a necessidade de construir atuações firmemente antirracistas no presente, para que não exista mais um necrofuturo para muitos.

É urgente revolucionar a moda porque vidas negras importam. E sempre importaram.

por Bárbara Poerner