O vestido de linho verde água

By Fashion Revolution

11 months ago

Desde o dia 18 de março estamos em quarentena com a minha avó Dora, que já tem 90 anos de idade. Transferi meu “home office” para cá, de onde escrevo esse texto e tenho dividido o tempo entre o trabalho e outras atividades com a família. Para quem não a conhece, deixe-me fazer uma pequena apresentação: minha avó Dora é a segunda geração da família do Corte Centesimal. Foi ela quem deu continuidade ao trabalho dos pais, criadores do “Método de Corte Centesimal” –tradicional método de modelagem de roupas, 100% brasileiro e mineiro. Foram mais de 60 anos dedicados ao trabalho na empresa. Profunda conhecedora da modelagem, vovó criou outros produtos voltados para o estudo da modelagem de roupas.  E eu sou a quarta geração dessa história.

Pois bem, outro dia, vovó montou a máquina de costura na mesa do sítio e foi consertar um vestido de linho, verde água, que ela fez já tem mais ou menos uns 30 anos. Sim! Eu disse 30 anos. Acreditem! “Lininha, basta adotar uma modelagem atemporal e bons tecidos para você usar a vida toda uma roupa.”, disse ela. A costura sempre fez parte da minha família. Cresci vendo minha mãe e minha avó costurando. Vestidos tubinhos sempre foram a paixão da minha avó. Ainda mais no verão. Blazers, calças, blusas. Tudo sempre feito de linho ou algodão. Ela tem pavor à tecidos sintéticos. Diz ela que esses abafam muito e não deixam a pele respirar. Vovó sabe das coisas.

Esse vestido que ela consertou acabou ganhando um pedaço de tecido de outra estampa, bem no meio dele. Mais do que natural depois de tanto tempo, o vestido se desgastar. Como foi bem aproveitado esse vestido  de linho! Enquanto consertava, vovó disse: “eu prefiro mil vezes fazer uma roupa do início. Mas, como eu amo esse vestido, vai ganhar um novo detalhe e mais alguns anos de vida.” Eu estou sempre aprendendo com a dona Dora. Mal sabe ela, mas alguns termos atuais como sustentabilidade e upcycling já fazem parte do seu dicionário há séculos, muito antes de virar “moda”. Ela me olha com uma cara de “do quê que você está falando, minha filha?” e continua nas suas costuras. O conserto do vestido ficou muito bom. Ao terminar, ela já olhou para um pedaço de tecido que havia sobrado e falou: “Agora, com esses retalhos nós podemos aproveitar e fazer as máscaras de pano para todo mundo. E aproveitamos para distribuir por aqui também.”

Dona Dora costurando

No dia seguinte, já estava ela toda feliz usando o seu vestido verde água de linho. Nem acreditei quando ela parou, por um segundo, ao pedir para fotografá-la com o seu amado vestido. Um milagre! O vestido é muito simples. Eu estava “botando reparo” nele – diria Guimarães Rosa – e percebi que ele está cheio de furinhos na barra. Ela fez questão de me lembrar que ainda não havia terminado o vestido, pois pretende fazer também um bordado, no tecido que ela usou para tampar os desgastes do tempo. Apesar de ter crescido vendo minha mãe e minha avó costurar, eu só entendi mesmo esse apego todo por uma roupa feita por nós mesmas, quando, depois de adulta, fui aprender a costurar. Recomendo para todo mundo. A sensação é das melhores. Nos sentimos poderosas, e ganhamos uma liberdade de criação impressionante. O céu é o limite.

Bom, o fato da modelagem e da costura estar no meu DNA não me fez nascer costurando. Somente após começar a trabalhar com minha avó, minha mãe e minha tia na empresa, quando minha avó anunciou a “aposentadoria” dela aos 80 anos de idade, é que percebi a necessidade de também aprender. Nesse processo, só me arrependo de uma coisa: não ter começado antes.  Ao aprender a costurar, percebi que adquirimos uma outra relação com uma peça que tenha sido feita por nós mesmas, do nosso jeito, com o nosso estilo e respeitando as características do nosso corpo. Temos um carinho e um amor muito maior pela roupa. E, ao contrário das peças vindas do fast-fashion, damos muito mais atenção e cuidado, antes de pensar em desfazer daquela peça que tenha sido feita por nós, ou por alguém da nossa família. A roupa ganha mais durabilidade e com isso, o meio ambiente também agradece.

Mas, engana-se você que pensa que ela fica esquecida no armário. Acho que acontece justamente o contrário. Você tem tanto orgulho de ter feito aquela roupa que, se deixar, quer usar o tempo todo. Em todas as ocasiões, faça chuva ou faça sol. Digo isso, por experiência própria também. Uma das minhas peças pessoais preferidas, feita por mim, foi um blazer azul marinho, com um forro lindo! Escolhi o modelo, tecido, fiz os moldes, cortei, alinhavei, desmanchei a costura quando errei, fiz de novo, costurei cada pedacinho, respeitando o tempo da costura de cada parte daquela peça. Apreciei cada momento da construção daquela roupa. Tudo era motivo para usar o meu blazer. Uma roupa não nasce na prateleira de uma loja. E isso fica tão óbvio quando você mesma faz, coloca a mão na massa. Ou quando você entende esse processo, vendo o trabalho de quem faz. Uma roupa é feita por mãos. Mãos que contam histórias. Mãos calejadas pelo tempo. Pelo trabalho. Mãos que nos ensinam, que nos afagam, que nos guiam e nos protegem. Acredito que a verdadeira revolução por uma moda mais justa e consciente no mundo passa pela valorização do lindo ofício das nossas costureiras e modelistas.

Então, que tal aproveitar a pergunta #QuemFezMinhasRoupas para refletir sobre como as roupas que você usa são feitas, por quem são feitas, em que condições de trabalho e questionar as marcas que produzem essas peças? Aproveito para te fazer um outro convite: quando tudo isso passar e a gente puder sair de nosso isolamento, faça uma pesquisa na sua rua, no seu bairro, no entorno da sua casa. Visite e conheça as costureiras de bairro, aqueles pequenos ateliês que passam de uma geração para outra. Valorize esses pequenos negócios. Valorize o feito à mão.

Agora, deixa eu ir porque a dona Dora já está aqui me chamando para fazer mais máscaras de tecido para quem precisar. Tentarei manter vocês informados sobre o bordado no vestido. Cenas para o próximo capítulo.

por Carolina Franco