Ativismo na maquiagem

By Fashion Revolution

1 month ago

por Maria Manoela Lampert Ceolin*

A maquiagem tem potencial para atuar de forma subversiva, como quando refuta o conservadorismo dos papéis relacionados ao gênero. Pode desistitucionalizar a arte trazendo fundamentos da pintura e do desenho aos rostos nas ruas. Carrega em si as questões raciais nas tonalidades de base para diferentes cores de pele ou em partes mais sutis como na aderência dos pigmentos. E assim como todo produto de consumo, envolve o classismo do poder de compra, participando de um sistema de moda que deposita na aparência grande parte da responsabilidade relacional entre os humanos.

Dentro deste habitual costume cotidiano, há um forte jogo de simbologias que faz parte tanto de uma construção interna, quanto de uma comunicação para com o exterior. Quando a liberdade de expressão deveria ser direito inerente de nossa existência, ainda encontramos muitas dificuldades para atingir esse objetivo. A partir de um lugar de sujeito-objeto, ao qual somos denominados como participantes desta sociedade moderna, pós-moderna, contemporânea.

Frente a uma padronização massiva dos nossos corpos, há limitações para o que é considerado normal e o que é visto como belo. Tudo que foge às definições de harmonia ocidental é percebido como estranho e sofre os variados níveis de preconceito e discriminação. É a sistematização das visões de mundo que impõe a todos uma única lente, em meio a tal fatalidade, estamos à procura de decifrar nossos próprios juízos de valor. 

Quando todas as campanhas de beleza estampam o mesmo rosto, fica difícil compreender que há mais do que um ideal. Apesar de estarmos num momento épico de novas frentes a favor da diversidade, esse é o início se comparado aos longos anos de cultura branca, magra, jovem, hegemônica. Essas publicidades que construíram nossos referenciais imagéticos ainda perpetuarão causando calamidades públicas.

Não há intuitos de reforçar a utilização de maquiagem, pelo contrário, o não uso e a contrariedade à performance são aqui compreendidos. Mas podemos assinalar que a prática de maquiar tem potencial para as descobertas de si próprio e para interferir socialmente. Afinal a questão aqui é maior que a técnica em si, este ativismo está no âmbito dos debates estéticos.

Como a maquiagem pode seguir outro caminho? Fugindo do conteúdo de beleza produzido através de mandamentos. Ninguém tem que usar maquiagem ou se sentir na obrigação de comprar exato produto. Além disso, a diversidade humana não pode estar repreendida a um modelo de delineado, de contorno ou até mesmo de composição das fórmulas. As pluralidades levam a segmentações para que especificidades sejam atendidas e contempladas. 

A possível autonomia do consumidor está na noção crítica para o consumo, tanto físico relacionado a cosméticos quanto teórico referente ao conteúdo. O ativismo pela estética está aliado ao desenvolvimento dessa criticidade, através da reavaliação dos conceitos de beleza existentes. O intuído de uma pluralização dentro das mídias é construído com olhar para fora delas, que também deve ser pensado fora da mão do capital, voltado às necessidades básicas humanas de conviver bem em si mesmo.

A maquiagem não precisa ser a aplicação de um molde, ela pode ser um reconhecimento da sua estrutura facial buscando a valorização do que o indivíduo entende como sua boniteza. Ao assumir maquiar alguém, surge a responsabilidade de interferir na identificação desse outro sujeito. À vista disso, aprofundar a sensibilidade da área se torna um fator essencial para construção de maquiadores competentes de suas relações, atentos às singularidades de cada rosto e respeitosos ao trabalhar com múltiplas personalidades.

O projeto de ativismo Maketrefe é feito em torno da liberdade de expressão por meio da maquiagem. No âmbito físico procura expandir sua rede de ativistas através de oficinas, elaboração de eventos, participação em rodas de conversa e até mesmo no atendimento do serviço individual de maquiagem. Elaboram-se práticas e discussões que contornem as mentalidades apoiadas no sistema vigente, a partir do espaço de intimidade do maquiar, que propicia a transformação de conceitos a partir da experiência proposta. 

A ocupação do Maketrefe na plataforma virtual Instagram age como interferência cultural, um gênero de ativismo nas novas mídias, que atua subvertendo as imagens, ideais e padrões da cultura de beleza tradicional para estabelecer pontos críticos. Assim adota a mídia digital como instrumento de articulação e suporte para criação de uma comunidade em prol da pauta de conteúdos estéticos que combatam a corrente de futilidade criada em torno da área e os estigmas impostos sobre os corpos. 

*Pesquisadora e produtora de moda, maquiadora e ativista autora do projeto Maketrefe.