O ativismo está na moda?

By Fashion Revolution

1 week ago

por Julia Codogno*

A luta por direitos básicos à melhores condições de trabalho, em todas as etapas da extensa e esmagadora cadeia produtiva, se torna crescente e vem estampando o perfil de diferentes veículos de comunicação e movimentos engajados a dar visibilidade às diversas denúncias que contemplam o setor. 

Vivenciando uma pandemia e o descortinar de graves crises sócio-econômicas, colocando em pauta problemas que se arrastam há décadas e anseiam por transformações, nos vemos ainda mais conectados através das redes sociais. Mergulhados em plataformas digitais capazes de compartilhar lutas essenciais para nossa sobrevivência. 

Nos últimos meses, vimos o florescer de perfis em uma das maiores plataformas digitais do mundo, escancarando ações criminosas e, fatalmente, recorrentes no mundo da moda como: o racismo e a deslegitimação de causas de extrema relevância para descontinuar práticas abusivas. Debates e confrontos à respeito de nossa complexa formação social e como isso é constantemente traduzido e fomentado através do mercado de moda.

A mesma indústria que é capaz de gerar receita anual de, aproximadamente, US$2,5 trilhões de dólares – segundo o relatório The State of Fashion, produzido por McKinsey & Company, em parceria com o Business of Fashion – viu parte de seus negócios sendo comprometidos e as críticas em torno do empenho por melhores práticas explodirem em rede. A exposição de um cenário frágil, que condiciona pessoas à situações degradantes, é responsável por impactos ambientais estratosféricos – com emissões de cerca de 8% a 10% de gases de efeito estufa (de acordo com a ONU Meio Ambiente) e que pouco tem feito para reverter tais condições, abriu espaço para debates importantes sobre como as coisas deverão caminhar daqui em diante. Debates que somente são eficazes e escalonados pela força do coletivo e por agregar, dia a dia, pessoas que partilham de tais enfrentamentos.

Um bom exemplo desse levante é o próprio movimento Fashion Revolution. Que através da pergunta #quemfezminhasroupas alcançou cerca de 170 mil pessoas durante a última edição do evento que ocorreu digitalmente em abril deste ano. Os dados são referentes ao Brasil.

Também vale destacar profissionais e grupos à frente de provocações pertinentes e fundamentais para alterar as ordens pré estabelecidas: A iniciativa Extinction Rebellion, nascida no Reino Unido em 2018 – a favor de transformações e movimentos para conter a gravíssima crise climática; A estilista Vivienne Westwood – ativista há anos por posicionamentos do setor; Emma Watson, que recentemente integrou o grupo Kering (detentor de marcas como Gucci, Saint Laurent e Balenciaga) entre outros. 

Ativismo além da moda

Acompanhamos, também, o clamor de mudanças sistêmicas: por parte das grandes corporações junto ao Estado em prol de medidas verdadeiramente eficazes relacionadas à processos produtivos mais responsáveis, o incentivo crescente à participação através do voto para frear medidas pecaminosas (como o caso da PL da Grilagem – PL 2633/20), a revolta contra o estabelecimento “silencioso” da necropolítica assolando o Brasil e o mundo, a mobilização à respeito do massacre às comunidades indígenas, a era dos cancelamentos, o questionamento em massa para quem não manteve entregas alinhadas à seus discursos pró sustentabilidade e o incentivo à ações importantes como o movimento #feitonobrasil e o apoio (efetivo) às pequenas (grandes) marcas.

Fomos provocados ao senso crítico e a percepção de que a moda nada mais é que um retrato velado de condutas cotidianas e a reverberação daquilo que nos tornamos.

O ativismo em rede se fortalece!

O tal “ativismo de sofá”, contundentemente discutido quando ainda se fazia possível o protesto de rua, abre caminho para novos formatos e possíveis debates. Onde outras vozes possam ser endossadas e capazes de iniciar novas narrativas.

Em significado claro, segundo o dicionário, ativismo está determinado como: “qualquer doutrina ou argumentação que privilegie a prática efetiva de transformação da realidade em detrimento da atividade exclusivamente especulativa, freq. subordinando sua concepção de verdade e de valor ao sucesso ou pelo menos à possibilidade de êxito na ação”.

Sendo assim, se torna inerente que toda, e qualquer ação, seja ela por via física e ou digital, se configure como justificada quando propositada por uma vontade de modificar o status quo ao qual estamos condicionados. 

Podemos compreender que, a luta ativista faz parte de nossas vidas desde sempre. Sendo travadas por pequenos ou grandes grupos que acreditam que modificações precisam ser alcançadas para o bem comum. Ser ativista é pensar e agir coletivamente.

Nenhum enfrentamento à situação pré-estabelecida visa ganho individual. Toda e qualquer batalha estará fortemente atrelada às conquistas compartilhadas. Assim como nenhum deles é constituído por engajamentos rasos e difundidos por discursos de ódio com apenas 280 caracteres. O ativismo demanda de articulações sólidas e de embasamentos genuínos.

Legítimo para rebeliões necessárias, o ativismo também desencadeia movimentações desconfortáveis para aqueles que detém o poder e vem ditando as regras do jogo. Abrindo precedentes para ameaças e perseguições que transcendem as barreiras digitais. Podendo custar a vida de pessoas do mundo todo. 

O Brasil é o terceiro país do mundo com maior número de assassinatos de ativistas. Em  2019, foram 24 ativistas mortos, sendo 10 deles, indígenas. No mundo, foram 212 pessoas que perderam suas vidas em prol do bem comum. Os dados pertencem ao relatório divulgado pela ONG internacional Global Witness.

O levante que acende a urgência em avançarmos agendas importantes para desmantelar conjuntos arcaicos e nocivos à nossa existência, torna clara a co-participação responsável de todos, por todos e para todos. 

Como diriam Caetano Veloso e Gilberto Gil em Divino Maravilhoso “…é importante estar atento e forte”.

Estabelecidos numa sociedade configurada como democrática, onde todos têm (ou deveriam ter) acesso à discorrer suas necessidades e ideais, o debate e a busca por práticas éticas e justas para todos não pode ser esquecida ou desmerecida. O ativismo resiste! 

*Julia Codogno é professora de moda e criadora de conteúdo sobre moda e sustentabilidade. Também criou um guia online que reúne mais de 200 marcas com iniciativas de impacto positivo. Acompanhe @juliacodogno 

Fontes: McKinsey & Company | Business of Fashion | ONU Meio Ambiente | Fashion Revolution | Extinction Rebellion | Forbes | Global Witness. Imagem: Pexels